Os bastidores da política roraimense nos últimos dias revelaram muito mais do que simples filiações partidárias. O que ocorreu entre 03 e 04 de abril — datas finais da janela partidária e do prazo de filiação para quem pretende disputar as eleições de 2026 — foi, na prática, o início de um redesenho estratégico de poder que pode impactar não apenas o próximo pleito, mas também o cenário de 2030.
A primeira grande surpresa foi a filiação de Gerlane Baccarin
ao Partido Liberal, com direito a anúncio feito pelo senador Flávio Bolsonaro.
O movimento, à primeira vista, pode parecer apenas mais uma articulação
partidária. Mas não é.
Gerlane é esposa do senador Hiram Gonçalves, que preside o Partido
Progressista no estado. Ou seja, sua ida para o PL não é casual — é
estratégica. O objetivo, ao que tudo indica, é posicioná-la desde já em uma
sigla com forte apelo eleitoral, preparando o terreno para voos mais altos no
futuro.
E esse futuro tem data: 2030. Quando estará em jogo
justamente a vaga hoje ocupada por Hiram no Senado. Até lá, o caminho natural
pode ser a construção de Gerlane como vice-governadora em uma chapa competitiva
em 2026.
Mas essa movimentação levanta uma dúvida inevitável: qual
será o papel do PL em Roraima nesse processo?
O partido é presidido no estado pelo ex-prefeito Arthur
Henrique, que desponta como uma das principais lideranças emergentes. Terá o PL
candidatura própria ao governo? Ou fará composição?
E mais: como fica a relação de Arthur com sua mentora
política, Teresa Surita, atualmente pré-candidata ao Senado?
Uma possível resposta passa por outro nome forte do cenário: Edilson
Damião. Caso uma chapa liderada por ele — dentro da federação entre União
Brasil e PP — não contemple Gerlane como vice, abre-se espaço para uma
alternativa: uma composição liderada por Arthur Henrique, com Gerlane ocupando
a vaga de vice-governadora.
Como se não bastasse, uma segunda movimentação sacudiu ainda
mais o tabuleiro: a filiação do ex-governador Antonio Denarium ao Republicanos,
assumindo inclusive o comando da sigla no estado. O detalhe mais sensível? A
mudança ocorreu sem aviso prévio ao PP, partido ao qual esteve vinculado por
anos.
Denarium já se coloca como pré-candidato ao Senado, o que
adiciona mais uma peça de peso na disputa.
No entanto, há um fator que pode mudar completamente o rumo
dessa história: o julgamento que pode cassar o atual governador Edilson Damião
e tornar Denarium inelegível. Se isso acontecer, quem assume o governo do
estado será o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Sampaio.
E é justamente aí que o jogo pode virar.
Assumindo o governo, a tendência natural é que Sampaio se
torne candidato tanto na eleição suplementar quanto na eleição ordinária de
2026. Isso reorganizaria completamente as forças políticas.
De um lado, um possível candidato à reeleição com a máquina
na mão. Do outro, uma oposição que precisará se redefinir rapidamente.
Nesse cenário, Arthur Henrique pode optar por uma mudança
estratégica: ao invés de disputar o governo, entrar na corrida pelo Senado. Um
movimento que, além de competitivo, pode representar um rompimento definitivo
com Teresa Surita.
Isso porque, embora Romero Jucá e Teresa se posicionem como
nomes de centro-direita, há uma leitura consolidada de que suas trajetórias
sempre dialogaram mais com o campo de centro-esquerda.
Enquanto isso, o grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro
— hoje com forte influência na Prefeitura de Boa Vista — busca consolidar um
nome ao Senado que esteja alinhado ideologicamente.
E, ao que tudo indica, esse nome é Arthur Henrique.
Com isso, o foco estratégico desse grupo passa a ser claro:
priorizar a eleição para o Senado e a formação de uma bancada federal forte,
deixando o governo estadual como peça secundária dentro do projeto maior de
poder.
O fato é que Roraima já entrou em modo eleição — mesmo que,
oficialmente, ela ainda esteja distante.
Os movimentos são silenciosos, mas altamente calculados.
E, como em todo bom jogo de xadrez, quem não entende o
tabuleiro… acaba sendo apenas peça.



