Após mais de três décadas de Estado, Roraima ainda não consolidou uma geração política autêntica e duradoura. As vaidades e divisões internas enfraqueceram o protagonismo dos roraimenses na própria terra.
Por Rudson Leite
Presidente do Partido Verde em Roraima
Há algum tempo venho chamando a atenção dos nativos e daqueles que chegaram há muitos anos e aqui fincaram raízes: em Roraima faltam novas lideranças políticas genuinamente roraimenses.
Desde a transformação trazida pela Constituição Federal de 1988 e a instalação do Estado de Roraima em 1991, surgiram várias lideranças políticas. No entanto, nenhuma delas conseguiu se estabelecer e dar continuidade a um legado político sólido, como ocorre em outros estados brasileiros.
Mesmo antes da Constituição de 1988, já havia forte presença de políticos que sequer sabiam localizar Roraima no mapa do Brasil. Os governadores nomeados por Brasília para administrar o antigo território federal vinham para cumprir uma missão, mas alguns enxergaram aqui um caminho político e por ele seguiram, conquistando mandatos eletivos com sucesso.
Entre os militares que governaram Roraima e se tornaram políticos, destacam-se o coronel aviador Hélio Campos, eleito senador da República — mas que faleceu poucos meses após assumir o mandato, deixando em seu lugar o pedreiro João França —, e o brigadeiro Ottomar de Souza Pinto, que foi governador nomeado, depois deputado federal e, posteriormente, o primeiro governador eleito do Estado. Sua esposa, Marluce Pinto, também foi eleita senadora.
Entre os roraimenses, Neudo Campos se tornou uma grande liderança, elegendo-se governador e conseguindo a reeleição, derrotando os grupos de Ottomar e Romero Jucá, que haviam se unido contra ele em 1998. Aquele seria o momento ideal para dar o próximo passo e consolidar um novo ciclo político genuinamente roraimense — mas fomos derrotados pelas vaidades.
Comecei minha trajetória em 1989, participando do processo eleitoral para presidente da República, na primeira eleição direta do período democrático. Em 1990, ocorreram as primeiras eleições para governador, e Roraima foi literalmente inundado por políticos vindos de outros estados. Vieram candidatos de Alagoas, parentes do então presidente Fernando Collor de Mello; do Rio Grande do Sul, que chegaram fora do prazo previsto na Constituição; de Pernambuco e do Amazonas — muitos deles acabaram eleitos.
A partir dessa primeira eleição, os políticos locais passaram a chamar esses recém-chegados de “paraquedistas”. Até um candidato chinês naturalizado brasileiro, Chhai Kwo Chheng, quase se elegeu senador pelo PPS de Cascavel e seu grupo.
Minha geração cresceu ouvindo os políticos roraimenses chamarem figuras como Jucá, Ottomar, Marluce, Teresa e tantos outros de “paraquedistas”. Mas havia um detalhe que só percebemos mais tarde: muitos dos que os criticavam, ao se elegerem, faziam alianças com esses mesmos políticos, e todos acabavam se beneficiando.
Com o tempo, a liderança de Neudo poderia ter sido o ponto de partida para uma nova geração de políticos roraimenses, mas ele não passou o bastão. Vieram Airton Cascavel como vice, depois Flamarion Portela — e a continuidade se perdeu.
As lideranças roraimenses foram caindo, uma a uma. Muitos terminaram presos, outros responderam a processos. Alguns sucumbiram por ingenuidade política, outros por falta de preparo, coragem ou estratégia. O fato é que todos caíram.
Hoje, estamos tão enfraquecidos que não temos um único nome capaz de nos liderar. E grande parte da culpa é nossa, por não nos unirmos como no passado.
Pergunto: quais órgãos ou estruturas ainda comandamos? Nenhum.
Chegamos a um ponto em que nem mesmo os partidos políticos, que são as ferramentas básicas para disputar o poder, estão sob nossa liderança.
É hora de refletir, reorganizar e reconstruir o que já foi um sonho de autonomia e protagonismo político de um povo que sempre soube lutar — mas que, neste momento, precisa reencontrar sua identidade política e o orgulho de ser roraimense.