segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A POLÊMICA: DIREITA X HAVAIANA/FERNANDA TORRES

 

Aproveitando a polêmica gerada a partir de um comercial das Havaianas, a atriz, escritora, roteirista e cronista Fernanda Torres passou a sofrer severas críticas de políticos e apoiadores da direita, sobretudo dos mais radicais.

Pensando nisso, fui tomado por uma lembrança dos tempos em que meus filhos eram adolescentes. O que vou relatar, tenho certeza, aconteceu — ou ainda acontece — com a esmagadora maioria das famílias brasileiras.

Meus filhos tinham amigos da mesma idade, todos calçando números parecidos: 41, 42… e quase todas as sandálias eram a famosa Havaiana.
Quando resolviam se reunir lá em casa, era uma festa: violão, música, cantoria, risadas e muitas aprontações. Até que chegava a hora de a diversão ganhar a rua — a praça do Mirandinha ou a da Amoca.

Na hora da saída, algo curioso sempre acontecia: a minha sandália Havaiana desaparecia.
Adotei então uma estratégia que, no fim das contas, não deu muito certo.

Passei a ir à loja e pedir, deliberadamente, a sandália que eu considerava mais “ridícula”. Era assim mesmo o pedido: Bob Esponja, Snoopy, Mickey… quanto mais chamativa, melhor.
O problema é que isso só piorava a situação. Eles adoravam! E lá ia eu comprar mais e mais sandálias Havaianas.

Já quebrado de tanto gastar com sandálias, resolvi mudar de tática: comprei uma sandália de couro cru trançado, estilo franciscano. Aquela, sim, ninguém quis. Tive, ainda que por pouco tempo, um sossego merecido.

Até que, num belo dia, surge o Ícaro Leite, todo fantasiado de árabe, praticamente pronto para uma festa no Iate Clube. Olhou pra mim e soltou, sem cerimônia:
Pai, cadê sua sandália de Jesus Cristo? Me empresta?

Foi o fim.
Nunca mais vi aquela sandália.

sábado, 6 de dezembro de 2025

A ESCOLHA CERTA OU UM TIRO NO PÉ?

 A direita vinha aguardando o comando de seu líder, Jair Bolsonaro, em meio a inúmeras especulações. Circulavam os nomes do próprio Bolsonaro e, em sua impossibilidade jurídica, surgiam como alternativas Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO), Michelle Bolsonaro, além dos filhos Eduardo e Flávio Bolsonaro.

Ontem, 05/12, o suspense acabou. O anúncio veio do próprio escolhido: Flávio Bolsonaro, o filho “número um”. Ele será o pré-candidato a presidente indicado pelo pai.

Na prática, aconteceu exatamente o que eu já havia comentado em um post anterior: Bolsonaro escolheria um de seus filhos, ganhando ou perdendo a eleição. A estratégia é simples e clara — manter seu eleitorado fiel preso a ele, Jair Bolsonaro, mesmo estando condenado e preso. Na cabeça do ex-presidente, sua aposta é que até 2030 recuperará seus direitos políticos e poderá voltar como candidato, preservando seu capital político por meio da candidatura de Flávio.

O problema é que parece que ele esqueceu de combinar com três atores fundamentais: os eleitores, o mercado e o próprio grupo político, que não recebeu bem a escolha.

A reação foi imediata. Assim que o nome de Flávio foi confirmado, a Bolsa de Valores despencou 7 mil pontos, um recado claro de que essa não era a candidatura preferida pelo mercado, que via em Tarcísio de Freitas um nome mais confiável.

O fato é que a direita, que já enfrentava dificuldades para encontrar rumo e unidade, agora terá um trabalho ainda maior: juntar os cacos.

Enquanto isso, as pesquisas divulgadas até agora mostram Lula 15 pontos à frente de Flávio Bolsonaro, o que representa aproximadamente 18 milhões de votos de vantagem. Se a eleição fosse hoje, Lula venceria ainda no primeiro turno.

domingo, 16 de novembro de 2025

NO MUNDO DIGITAL, A FÉ PERDE OU GANHA ESPAÇO?

Eu venho de um tempo em que ir à igreja não era escolha — era parte da vida.

Fiz primeira comunhão no Uiramutã, cresci na igreja Batista Regular de Boa Vista, aprendi Bíblia na escola dominical, respeito com os mais velhos e o valor de tomar a bênção.

Crescemos enquanto o mundo mudava: do telex ao celular, do silêncio ao barulho infinito da internet.
Hoje, a fé compete com a informação na palma da mão.
E muitos jovens já não encontram na igreja o que antes encontrávamos: direção, abraço, sentido.

Enquanto isso, padres e pastores se perdem em disputas políticas, viram bandeiras, viram lados.
E quando a fé vira palanque, o amor vira distância — e os irmãos viram inimigos.

Está na hora de acordar.
A igreja precisa voltar a ser ponte, e não muro.
Precisa voltar a ser evangelho, e não ideologia.
Precisa voltar a ser casa de paz, e não arena de guerra.

Porque, no fim, a tecnologia pode mudar tudo —
mas não pode mudar aquilo que só o coração entende:
a fé que acolhe, cura e une.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

SEGURANÇA PÚBLICA: ESPECIALISTAS E SOCIEDADE DEFENDEM MODELOS DISTINTOS PARA O FUTURO DO BRASIL

 A discussão sobre o modelo ideal de segurança pública no Brasil voltou ao centro do debate no Congresso Nacional. Em análise está uma proposta relatada pelo deputado federal e ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP/SP), que divide opiniões tanto no governo federal quanto na oposição.

A Constituição Federal de 1988, no artigo 144, define que a segurança pública é dever do Estado, exercido por meio de instituições como a Polícia Federal, Polícias Civis e Militares, Polícias Penais e Corpos de Bombeiros Militares. Ao mesmo tempo, estabelece que a segurança é também responsabilidade de todos os cidadãos, dependendo da colaboração social para ser eficaz.

Pela legislação, os municípios também podem atuar por meio das Guardas Municipais, que têm entre suas atribuições a proteção de bens e serviços e, em alguns casos, ações de preservação da ordem pública.

O governo federal defende que o combate ao crime organizado deve priorizar inteligência policial e políticas públicas nas áreas de educação, saúde e inclusão social. Já setores da direita defendem uma atuação mais rígida, com maior uso da força e enfrentamento direto ao crime — posição reforçada após recentes operações no Rio de Janeiro. Alguns parlamentares apontam ainda o modelo de El Salvador como referência.

Especialistas avaliam que nenhum dos modelos terá eficácia plena sem participação popular. Para muitos analistas, a criação de uma relação de confiança e cooperação entre a sociedade e os órgãos de segurança é indispensável. Sem isso, afirmam, reformas legais, equipamentos modernos e aumento de efetivo podem não surtir o efeito esperado.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

PEDIDOS DE VISTA E O JOGO POLÍTICO POR TRÁS DA DEMORA

Por Rudson Leite

Presidente do Partido Verde em Roraima

O já esperado pedido de vista por parte do ministro Kássio Nunes Marques se concretizou. O que antes era apenas um rumor nas rodas políticas de Roraima tornou-se realidade, confirmando o que muitos analistas já previam: a continuidade da novela jurídica que envolve o mandato do governador Antonio Denárium (PP).

Com o pedido de vista, o julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ficará suspenso por 30 dias, prazo que ainda pode ser prorrogado por mais 30. E como tem sido comum em casos de grande repercussão política, outro ministro poderá fazer novo pedido de vista quando o processo retornar à pauta. O resultado? A perpetuação da incerteza e o desgaste da imagem da própria Corte, que passa a ser vista por parte da sociedade como lenta e politicamente seletiva.

Esse novo adiamento ocorre em meio a outros casos semelhantes, como o do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL) — ambos integrantes do chamado Centrão. A coincidência faz surgir uma pergunta inevitável:
O TSE será firme e coerente ao julgar ambos os casos, ou penderá para o peso político de cada um?

A população de Roraima e do Rio de Janeiro — e, por que não dizer, de todo o Brasil — aguarda uma resposta clara. O que o povo espera é celeridade, isenção e coerência nas decisões. A demora e os sucessivos pedidos de vista alimentam a insegurança jurídica, um mal que corrói a credibilidade das instituições e gera instabilidade política.

Se o pedido de vista atual for devolvido dentro do prazo inicial de 30 dias, é provável que uma eleição suplementar em Roraima só ocorra a partir de março de 2026. E em 4 de abril, o governador Denárium terá de se descompatibilizar do cargo para disputar uma vaga no Senado.

O problema é que, sem julgamento definitivo, ele permanecerá inelegível, com o registro de candidatura sujeito à impugnação. Mesmo assim, poderá recorrer e disputar a eleição sub judice, o que ampliará o volume de demandas na Justiça Eleitoral — justamente essa Justiça que parece não ter pressa em julgar.

Enquanto isso, o tempo corre, a incerteza aumenta e a confiança da população nas instituições democráticas vai se esvaindo. É hora de o TSE compreender que justiça tardia é injustiça política, e que decisões adiadas também moldam o destino de um estado e de sua gente.

CASSAÇÃO DE DENÁRIUM PODERÁ ACONTECER OU HAVERÁ NOVO PEDIDO DE VISTAS?

Amanhã, dia 11/11/25, a partir das 19:00 ocorrerá a retomada do julgamento da chapa Antônio Denárium e Edilson Damião, governador e vice-governador respectivamente.
Ocorrendo a cassação, o que poderá acontecer? A dupla poderá recorrer contra a cassação? A resposta é não. Se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassar o mandato do governador de Roraima, não caberá mais recurso ao próprio TSE.
Entenda por que:
O TSE é a instância máxima da Justiça Eleitoral. Isso significa que suas decisões são definitivas em matéria eleitoral, salvo quando há alguma ofensa direta à Constituição Federal — e, nesse caso, a parte prejudicada pode recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Assim, as possibilidades são:
1. Embargos de declaração ao próprio TSE –
Podem ser apresentados em até 3 dias após a publicação do acórdão, apenas para esclarecer omissões, contradições ou obscuridades na decisão.
Eles não mudam o mérito do julgamento, servem mais como correção formal.
2. Recurso extraordinário ao STF –
Cabível somente se a defesa entender que a decisão do TSE violou a Constituição Federal (por exemplo, direito ao devido processo legal, ampla defesa, etc.).
Esse recurso não reexamina provas ou fatos, apenas questões constitucionais.
O que pode acontecer na prática:
• Se o TSE confirmar a cassação, o presidente da Assembleia Legislativa assume interinamente.
• Enquanto isso, o STF pode analisar um eventual recurso extraordinário, mas ele não suspende automaticamente os efeitos da decisão.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

RORAIMA E A CRISE DAS LIDERANÇAS GENUINAMENTE RORAIMENSES

Após mais de três décadas de Estado, Roraima ainda não consolidou uma geração política autêntica e duradoura. As vaidades e divisões internas enfraqueceram o protagonismo dos roraimenses na própria terra.

Por Rudson Leite
Presidente do Partido Verde em Roraima

Há algum tempo venho chamando a atenção dos nativos e daqueles que chegaram há muitos anos e aqui fincaram raízes: em Roraima faltam novas lideranças políticas genuinamente roraimenses.

Desde a transformação trazida pela Constituição Federal de 1988 e a instalação do Estado de Roraima em 1991, surgiram várias lideranças políticas. No entanto, nenhuma delas conseguiu se estabelecer e dar continuidade a um legado político sólido, como ocorre em outros estados brasileiros.

Mesmo antes da Constituição de 1988, já havia forte presença de políticos que sequer sabiam localizar Roraima no mapa do Brasil. Os governadores nomeados por Brasília para administrar o antigo território federal vinham para cumprir uma missão, mas alguns enxergaram aqui um caminho político e por ele seguiram, conquistando mandatos eletivos com sucesso.

Entre os militares que governaram Roraima e se tornaram políticos, destacam-se o coronel aviador Hélio Campos, eleito senador da República — mas que faleceu poucos meses após assumir o mandato, deixando em seu lugar o pedreiro João França —, e o brigadeiro Ottomar de Souza Pinto, que foi governador nomeado, depois deputado federal e, posteriormente, o primeiro governador eleito do Estado. Sua esposa, Marluce Pinto, também foi eleita senadora.

Entre os roraimenses, Neudo Campos se tornou uma grande liderança, elegendo-se governador e conseguindo a reeleição, derrotando os grupos de Ottomar e Romero Jucá, que haviam se unido contra ele em 1998. Aquele seria o momento ideal para dar o próximo passo e consolidar um novo ciclo político genuinamente roraimense — mas fomos derrotados pelas vaidades.

Comecei minha trajetória em 1989, participando do processo eleitoral para presidente da República, na primeira eleição direta do período democrático. Em 1990, ocorreram as primeiras eleições para governador, e Roraima foi literalmente inundado por políticos vindos de outros estados. Vieram candidatos de Alagoas, parentes do então presidente Fernando Collor de Mello; do Rio Grande do Sul, que chegaram fora do prazo previsto na Constituição; de Pernambuco e do Amazonas — muitos deles acabaram eleitos.

A partir dessa primeira eleição, os políticos locais passaram a chamar esses recém-chegados de “paraquedistas”. Até um candidato chinês naturalizado brasileiro, Chhai Kwo Chheng, quase se elegeu senador pelo PPS de Cascavel e seu grupo.

Minha geração cresceu ouvindo os políticos roraimenses chamarem figuras como Jucá, Ottomar, Marluce, Teresa e tantos outros de “paraquedistas”. Mas havia um detalhe que só percebemos mais tarde: muitos dos que os criticavam, ao se elegerem, faziam alianças com esses mesmos políticos, e todos acabavam se beneficiando.

Com o tempo, a liderança de Neudo poderia ter sido o ponto de partida para uma nova geração de políticos roraimenses, mas ele não passou o bastão. Vieram Airton Cascavel como vice, depois Flamarion Portela — e a continuidade se perdeu.

As lideranças roraimenses foram caindo, uma a uma. Muitos terminaram presos, outros responderam a processos. Alguns sucumbiram por ingenuidade política, outros por falta de preparo, coragem ou estratégia. O fato é que todos caíram.

Hoje, estamos tão enfraquecidos que não temos um único nome capaz de nos liderar. E grande parte da culpa é nossa, por não nos unirmos como no passado.

Pergunto: quais órgãos ou estruturas ainda comandamos? Nenhum.
Chegamos a um ponto em que nem mesmo os partidos políticos, que são as ferramentas básicas para disputar o poder, estão sob nossa liderança.

É hora de refletir, reorganizar e reconstruir o que já foi um sonho de autonomia e protagonismo político de um povo que sempre soube lutar — mas que, neste momento, precisa reencontrar sua identidade política e o orgulho de ser roraimense.

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