sexta-feira, 22 de maio de 2026

O MITO DOS 10 BILHÕES: ENTENDA A REAL SITUAÇÃO FINANCEIRA DE RORAIMA

Rudson Leite - Adm
Uma declaração recente do ex-governador Antônio Denarium acendeu o debate político em Roraima. Em um vídeo que circula nas redes sociais, ele afirma: “Quando deixei o cargo de governador do estado de Roraima, no dia 27 de março de 2026, deixei nas contas do governo do estado, mais de 10 bilhões de reais”.

À primeira vista, a cifra impressiona. No entanto, uma análise técnica e fria dos números mostra que a realidade do caixa do estado é bem diferente daquela que o cidadão comum imagina ao assistir ao vídeo.

Onde está esse dinheiro? Desmistificando os R$ 10 bilhões

O grande problema da fala do ex-governador é a falta de distinção entre o montante bruto global e a disponibilidade financeira real para o custeio do estado. O valor mencionado está dividido da seguinte forma:

  • R$ 8,27 bilhões (Fundo de Previdência): Este dinheiro pertence exclusivamente aos servidores aposentados e àqueles que ainda vão se aposentar. Trata-se de uma verba carimbada e blindada por lei; o governo não pode tocar nela para pagar fornecedores, obras ou despesas correntes.
  • Mais de R$ 2 bilhões (Caixa Descentralizado): Este valor engloba a arrecadação própria, convênios com o governo federal e empréstimos bancários vinculados a projetos específicos de todas as secretarias.

A conta não fecha: O peso do orçamento mensal

Dizer que o atual governador tem R$ 10 bilhões à disposição para gerir o estado é uma ilusão. Para entender o tamanho do desafio fiscal de Roraima, basta olhar para o orçamento aprovado pela Assembleia Legislativa para o exercício de 2026:

  • Orçamento Anual: R$ 9,92 bilhões
  • Custo Mensal Estimado: Cerca de R$ 826,6 milhões

Mesmo se os R$ 2 bilhões das contas das secretarias estivessem totalmente livres para uso — o que não estão, por conta dos repasses vinculados —, esse montante seria suficiente para cobrir pouco mais de dois meses de despesas do estado.

A realidade do caixa livre: R$ 54 milhões

O cenário ganha contornos mais dramáticos quando analisamos a transmissão final do cargo. O governador interino, Soldado Sampaio — que assumiu o comando do estado após o período de 34 dias em que o vice-governador Edilson Damião Lima esteve no poder —, revelou uma realidade dura: ao assumir, a conta corrente de livre movimentação do Governo do Estado de Roraima (GER) contava com apenas R$ 54 milhões.

Para um estado que gasta mais de R$ 800 milhões por mês, um saldo de R$ 54 milhões em conta corrente acende o sinal de alerta para a governabilidade e para a manutenção dos serviços públicos essenciais.

O histórico de socorros federais

A fragilidade das contas de Roraima não é novidade. Vale lembrar que, no final de 2018, quando o próprio Antônio Denarium assumiu o Executivo logo após o decreto de intervenção federal, a União precisou injetar R$ 225 milhões emergenciais nos cofres públicos apenas para sanear as contas, quitar salários atrasados e evitar o colapso da segurança e da saúde.

Conclusão

Na política, a forma como os números são apresentados pode criar realidades paralelas. Anunciar que deixou R$ 10 bilhões em caixa sem explicar que a maior parte desse dinheiro pertence à previdência dos servidores induz o público ao erro. A transparência na gestão fiscal é o único caminho para que a população compreenda a verdadeira saúde financeira do nosso estado.

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